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Lilian Gamba @liliangamba.bsky.social
Jul 8, 03:59 AM

Minha mãe foi merendeira concursada no estado. Cozinhava para as crianças como se estivesse cozinhando em casa para os netos. Muitas vezes eu a vi preocupada porque não tinham entregue os alimentos. Na época existia uma área responsável pelo abastecimento de todas as escolas. Não sei como é hoje.

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"A meritocracia acaba na primeira cozinha profissional que você entra. Primeira vez que um grande amigo meu de infância, um homem, me disse assim Tai, você trabalha muito mais do que eu. Muito louco, porque são aquelas coisas que são meio óbvias, mas que quando você cola no teu cotidiano, quando você entende na tua realidade, dá um boom na cabeça. Fez um boom na minha cabeça, embora eu já entendesse teoricamente do que ele estava falando. Falei, caramba, né? Verdade. Se o meu esforço fosse o determinante para o meu sucesso, eu estava no auge. Porque eu trabalho exaustivamente desde os 16 anos de idade. Trabalho muito mesmo, muitas horas, a vida inteira trabalhando. É uma vida trabalhando, gente. E o mesmo motivo que me faz não estar no topo é o que faz, por exemplo, as merendeiras de escola pública que acordam às 4 horas da manhã, pegam um ônibus lotado, tenham grandes paneladas e alimentam um monte, centenas de crianças. Por que que elas ganham muito, muito, muito, muito menos que um chefe de cozinha? Lembrando que a grande maioria dos chefes de cozinha bem-sucedidos hoje no nosso país são homens brancos. Quantos Alex Atala para o Melena Rizzo, não é mesmo? Qualquer um de nós, e a gente nem precisa ter base teórica para isso, é só vivência mesmo. Quer um de nós que olhar uma merendeira se matando de trabalhar por anos e nunca vai pensar, nossa, essa moça vai ficar rica, hein? Do jeito que ela trabalha, vai ficar rica. Isso nos prova que a meritocracia é uma das grandes falácias do capitalismo. Nesse ponto, eu acho válido uma contextualização histórica. O termo meritocracia foi um termo de 1958 colocado no livro The Rise of the Meritocracy do sociólogo britânico Michael Young. E o engraçado é que o Michael, ele estava fazendo uma crítica e não assim um elogio. Ele imaginou uma sociedade futura onde as pessoas seriam classificadas pela inteligência, pela produtividade e os vencedores acreditariam que merecem tudo o que tem. Da mesma forma que os perdedores seriam levados a entender que é a posição social deles que determina esse lugar. Ou seja, a crítica dele era se a desigualdade é justificada pelo mérito, ela se torna ainda mais cruel. Porque os privilegiados, eles passam a acreditar que eles merecem seus privilégios. E os desfavorecidos passam a se culpar por essa situação. Que, a risco de dizer, fortalece ainda mais as rachaduras da desigualdade. Os cozinheiros que mais produzem comida não são os que ganham mais dinheiro. Os agricultores que plantam alimento não são quem mais lucram com eles. Então, o problema talvez não seja a falta de esforço. Talvez a pergunta seja outra. Quem fica com o valor gerado por esse trabalho? Trabalhando com comida que eu conectei isso, assim, sabe? Que eu passei a pensar isso na prática. A desigualdade, ela não acontece porque algumas pessoas trabalham e outras não. Ela acontece porque nem todo trabalho é recompensado da mesma forma. A gente vive num mundo que ainda cole todos os frutos de uma abolição da escravidão que não teve planejamento nenhum. A gente corre as consequências de 200 anos de exploração de africanos e indígenas até hoje. Então, enquanto a gente continuar confundindo riqueza com mérito, nós vamos continuar culpando os trabalhadores por problemas que eles não criaram. E jogando, mais uma vez, no indivíduo, dentro da perspectiva dessa sociedade capitalista neoliberal, o peso nas costas de carregar o seu sucesso ou o seu fracasso. Então, só pra fechar, a meritocracia é uma grande falácia. Muito bom dia."

💬 Discussion

Lilian Gamba @liliangamba.bsky.social · Jul 6, 02:06 PM

Minha mãe foi merendeira concursada no estado. Cozinhava para as crianças como se estivesse cozinhando em casa para os netos. Muitas vezes eu a vi preocupada porque não tinham entregue os alimentos. Na época existia uma área responsável pelo abastecimento de todas as escolas. Não sei como é hoje.

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