E desde sempre, nós CRIANÇAS/MENINAS/MELHERES NEGRAS somos vistas como?
"Você já parou pra pensar como a infantilização de mulheres brancas tem um impacto real. Tem um dispositivo operando no Brasil que distribui a inocência de uma forma racialmente seletiva. Ele tem raízes coloniais e atravessa instituições aparecendo em lugares que a gente nem sempre conecta entre si. Isso começa desde cedo. Pesquisas documentam como adultos percebem meninas negras como menos inocentes e mais adultas do que suas colegas brancas da mesma idade a partir dos 5 anos. Meninas negras representam 14% das suspensões escolares e apenas 8% das matricôs. Elas são encaminhadas ao sistema de justiça juvenil quase 3 vezes mais do que meninas brancas. E não é porque elas se comportam diferente, mas porque o olhar adulto sobre elas já não enxerga uma criança que precisa de orientação. Enxerga, na verdade, alguém que pode responder pelos próprios atos. Esse olhar aí não some quando essas meninas crescem. Ele migra para outras instituições. Pesquisas brasileiras sobre a atenção ao parto documentam que mulheres negras recebem menos analgésicos. Tem suas questas de dor descredibilizadas em maior proporção e são interrompidas com maior frequência por profissionais de saúde. Isso daí a gente não pode só colocar como uma má fé individual de cada profissional, mas sim uma construção social de uma mulher negra forte. A mula, como a gente já nomeou uma vez, a mulada, nega as mulheres negras a permissão para serem vulneráveis, para sentir uma dor que o sistema reconheça como real e urgente. E aí do outro lado da sua equação está a Cinhazinha, o arquétipo colonial de uma donzela branca que precisava ser protegida, preservada do peso das responsabilidades que o mundo carregava. Essa figura aí não morreu com a escravidão. Ela se atualizou, ganhou um tom de voz infantilizado nas redes sociais. Ganhou o advogado que instruiu sua cliente a chorar diante das câmaras usando uma camisa branca. Sabe, quem me conhece sabe. Eu tenho até amigos que são. Ela era como se fosse da família. Ela ganhou os deputados que riram quando Virgínia Fonseca, que foi convocada para depor na CPI das Beth sobre um produto que ela promovia massivamente, entrou na sessão com o mesmo entusiasmo dos vídeos do produto. Eles não confrontaram ela, eles deram risada. Eles leram ela ali como uma menina que não sabia muito bem onde é que ela estava. E é isso que Deus abençoou em nossa audiência. Bora pra cima. Obrigada. Quando a mulher negra nomeia uma violência ou aponta uma contradição estrutural, o aparato dominante processa ela como problemática movida por um ressentimento, ressentida, amargura. Quando a mulher branca diz exatamente a mesma coisa, frequentemente absolvendo um trabalho intelectual produzida pela mulher negra, ela é processada como corajosa, perspicaz à frente do seu tempo. O que documentou exatamente isso, dizendo que feministas brancas que definem sua própria experiência como uma norma universal tendem a ver a mulher negra que questiona esse procedimento como teimosa, problemática e irracional, em vez de simplesmente reconhecer realmente nessa reação com a resposta legítima à dominação. E essa inocência da mulher branca não é um estado emocional, é uma tecnologia de distribuição de autoridade. E ela começa a operar antes mesmo de qualquer fala. Começa a operar no corpo, no fenótipo, na leitura automática que as instituições fazem de quem merece proteção e quem já nasceu responsável."
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E desde sempre, nós CRIANÇAS/MENINAS/MELHERES NEGRAS somos vistas como?