"O jeito brasileiro de jogar futebol nasceu porque os jogadores negros não podiam tocar nos jogadores brancos em campo. E foi essa restrição que criou a identidade de marca mais reconhecida do futebol mundial. O futebol chegou no Brasil vindo da Inglaterra no final do século XIX. Nos primeiros anos, os jogadores negros, que fizessem contato físico com os jogadores brancos, arriscavam ter punição dos outros jogadores e às vezes até da polícia. Omar o Filho documentou isso em 1947 no livro O Negro no Futebol Brasileiro. Para jogar, os jogadores negros tinham que encontrar outro caminho, e o caminho foi o drible. Domingos da Guia, zagueiro da seleção de 1938, deixou isso documentado numa entrevista. O tal do drible curto eu inventei imitando miudinho aquele tipo de samba. O drible nasceu da restrição, com influência do samba e da capoeira. E essa ginga foi se tornando a assinatura do futebol brasileiro. É por isso que o mundo chamou o nosso futebol de arte. Não porque a gente ganhava mais, os outros países também ganhavam, mas porque tinha beleza, invenção, expressão individual de cada jogador. Quando as pessoas da China, da Índia, do Japão torcem pelo Brasil num jogo que não envolve o país delas, elas estão respondendo a uma identidade estética construída ao longo de décadas. Não é propaganda, é a cultura que virou a marca. As identidades de marca mais poderosas raramente nascem de estratégia. As pessoas nascem de contexto de necessidade, de algo genuíno que precisava existir. E foi exatamente essa a autenticidade que fez do futebol brasileiro, algo que o mundo inteiro reconhece até hoje."